"Eu pensava em todas essas armadilhas enquanto
caminhava na Lagoa, um dia de céu de cara amarrada, um tiquinho de sol muito lá
longe, tudo bem parecido comigo naquela manhã. Eu me perguntei por que quando
mais precisamos de nós mesmos, geralmente mais nos faltamos. Que estranha
escolha é essa que faz a gente alimentar os abismos quando mais precisa
valorizar as próprias asas. Como conseguimos gostar tanto dos outros e tão
pouco de nós. Eu me perguntei quando, depois de tanto tempo na escola, eu
realmente conseguirei aprender, na prática, que o amor começa em casa. Por que,
tantas vezes, quando estou mais perto de mim, mais eu me afasto. Eu me
perguntei se viver precisa, de fato, ser tão trabalhoso assim ou se é a gente
que complica, e muito. Como conseguimos ser tão vulneráveis, ao mesmo tempo que
tão fortes. Somos humanos, é claro, mas ser humano é ser divino também.
Eu não tenho muitas respostas e as que tenho são
impermanentes, como os invernos, os dias de céu de cara amarrada, os lugares de
dor, os abismos todos, o bom uso das asas, os fios desencapados, as medidas e
as desmedidas. Tudo passa, o que queremos e o que não queremos que passe, a
tristeza e o alívio coabitam no espaço desta certeza. Eu não tenho muitas
respostas. O que eu tenho é fé. A lembrança de que as perguntas mudam. Um modo
de acreditar que os tiquinhos de sol possam sorrir o suficiente para desarmar a
sisudez nublada de alguns céus. E uma vontade bonita, toda minha, de
crescer."
(Ana Jácomo)

Nenhum comentário:
Postar um comentário