A lista de
mortos da gente vai aumentando com o tempo. Quando eu era pequena não
tinha noção desse morre e nasce. Mesmo porque ninguém meu morria. Tudo
tinha um quê tão definido de eternidade, tudo durava tanto e a vida não
faltava; a vida era pontual como os quintais e as goiabeiras ali. Todo
dia ali. Existindo. Eu não tinha a mínima noção desse vai-e-vem. Desse
revezamento. Desse rodízio da humanidade: quem vai pro saque, quem sai
do jogo, quem é escalado, quem vai pra reserva. Nada disso havia na
minha menina. Agora não. (...) O itinerário das vias de cada um vai
estourando como bolas de aniversário na minha cara e vai ficando longe o
tempo em que os meus não morriam. Nem quando eu queria. Deus com
certeza ri. Não de sarcasmo. Mas pelo costume de ver passar as boiadas. E
de olhar pra elas despencando na curva final das planícies. Pra onde,
só Deus sabe. E é por isso que ele ri. (Elisa Lucinda)

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